Em 2024, fui honrada com o convite para integrar, como membro fundadora, a Academia de Letras e Artes de Porto Franco e Região (ALAPOFRAN), ocupando a cadeira de número 12, cujo patrono é o escritor Aluísio Azevedo. Minha trajetória sempre esteve entrelaçada à palavra — não apenas como escritora, mas como educadora profundamente engajada na formação literária dos meus alunos. A literatura sempre foi, para mim, um instrumento de transformação: social, afetiva, existencial. Não se trata apenas de ensinar a ler ou escrever, mas de abrir caminhos, escancarar janelas, provocar olhares.
Ao receber o nome de Aluísio Azevedo como patrono da minha cadeira, senti mais que orgulho: senti correspondência. Como ele, carrego na escrita o olhar sobre o cotidiano, a inquietação com as desigualdades, a força crítica aliada à sensibilidade. Não escrevo para enfeitar — escrevo para dizer. Para tocar. Para revelar. A minha palavra, como a dele, nasce do mundo — mas se constrói no silêncio, no sentimento e na urgência de não deixar passar despercebido aquilo que merece ser eternizado.
Como meu primeiro texto enquanto imortal, escolhi escrever algo que não veio da razão, mas da raiz: uma homenagem ao meu pai. Durante anos, guardei essa escrita como se fosse impossível verbalizá-la. Mas quando finalmente consegui, percebi que aquilo que ele plantou em mim com gestos, silêncios e firmeza, germinou. E hoje, reconheço que essas sementes — as que ele cultivou em mim — são as mesmas que eu germino em sala de aula. Nos gestos, nas palavras, nos olhares dos meus alunos, vejo que o legado dele não parou em mim. Ele segue através de mim, no que eu ensino e no que eles levam.
O vídeo abaixo, disponível na rede social da ALAPOFRAN, marca a minha apresentação oficial como imortal da Academia de Letras e Artes de Porto Franco e Região, bem como o lançamento do meu primeiro poema: “A Tchutchuca do Papai” — uma homenagem intensa, íntima e inteira.
Mais abaixo, segue o poema na íntegra.
A Tchutchuca do Papai
Na flor da idade, seu amigo preferido era o pai.
Companheiro de viagem,
de seus braços conheceu o calor.
O valor veio através de suas palavras —
e de seu cinturão.
Tempo nunca faltou para se sentar e conversar com os filhos.
Foi de uma música que chegou seu primeiro apelido: Pequitita.
Menina travessa, cheia de energia,
saber conversar nunca foi um problema.
Mas o tempo… ah, esse ela perdia de vista.
Fosse brincando ou andando de bicicleta,
muitos castigos ela tomou por sumir ou chegar fora de hora.
Seus sorrisos derretiam o coração do seu papai.
Mas no dia de vacina, a cidade inteira ouvia seus gritos.
Ele ensinava aos filhos a importância da educação,
sonhava com uma vida melhor para a família —
bem diferente daquela que teve, em meio a tantas dificuldades.
Junto à esposa, ousou sonhar alto.
E com o suor de ambos, conseguiu educar os filhos.
A menina travessa cresceu.
Ainda sorridente e conversadeira,
foi ganhando mais personalidade.
E assim, chegou a fase da Cururuca.
Amava ver os pais jogando baralho.
Perturbou tanto o pai que ele acabou ensinando —
mas de uma maneira dura.
Não a deixava ganhar nunca.
Pela derrota, ensinou-lhe a ser mais forte, mais estratégica.
Além do baralho, também se deliciavam com os jogos de dama.
Passavam as tardes jogando dama
e, nas noites de fim de semana, a canastra reinava.
Na época, ela não compreendia a dureza de seu pai.
Não se tratava de jogo — nunca foi.
Somente adulta percebeu que o aprendizado era para a vida:
“Não desistir.”
“Sempre continuar tentando.”
Ele dizia, entre palavras, carinhos e silêncios,
que ela tinha um jeito raro de seguir adiante —
mesmo quando o mundo teimava em cair.
Cresceu mais um pouco e saiu de casa para estudar.
Um mundo novo, novas descobertas e amizades.
Mesmo assim, em seu coração, sentia falta do seu Curuvéio.
Escrevia-lhe cartas e mandava-lhe cartões —
estes que, muitos anos depois, ainda guardava como recordação.
Eram partes valiosas de seu passado com sua caçulinha.
Alegrava-se quando seus pais visitavam os filhos.
Era sagrado: tempo deles, para as conversas e jogatinas.
Preferia ficar, ou viajar com eles, a sair com os amigos.
O tempo seguia seu curso, e com ele, vieram novas fases.
Foi então que surgiu o terceiro apelido: Tchutchuca.
Quando se formou, voltou à fazenda para morar com os pais.
Nessa época, era apenas Tchuca:
uma mulher refeita, que ainda desfrutava do colo do pai,
que ainda jogava e passava tardes com ele.
Foi com o pai que aprendeu o que é empatia e solidariedade.
Foi trabalhar em uma escola, com o ideal de fazer a diferença.
Teve no pai o grande conselheiro, amigo e inspiração.
Ele a fazia acreditar, a encorajava a seguir os sonhos.
Ouvia, acalentava — e puxava a orelha, se fosse preciso.
Mas ai de quem mexesse com suas crias!
Um dia chegou, e abalou essa querida família.
O papai adoeceu… e Deus o levou.
Maldito tempo.
Não foi suficiente para abraçar mais,
acariciar mais, aproveitar mais.
Para dizer “eu te amo” mais vezes.
Mas ela pôde se despedir.
E ouvir, uma última vez:
“Te amo, Tchuca.”
Sua partida fez com que ela valorizasse os que ainda ficaram.
Foi preciso perder o pai para conseguir compreender —
e se aproximar da mãe.
Abraçá-la sempre que puder,
dizer mil vezes o quanto a ama —
porque a vida é isso: amor vivido.
Hoje, ela é a Katita de sua mamãe.
E sua mãe se tornou Mamis, Bebezona e sua “Tesoura”.
Porém, também é — e sempre continuará a ser —
a Tchutchuquinha do papai.
Palavras e pensamentos só se completam quando encontram alguém que os sente.
Se você foi tocado, me deixe saber: curta e compartilhe comigo as emoções que sentiu. 🧡
4 respostas para “ALAPOFRAN”.
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Há projetos que vão além do digital — eles nascem do coração.”
Parabéns minha amiga Karen e como estou feliz em fazer parte da sua equipe. Quero aprender muito com você. Como já lhe falei, você tem uma inteligência brilhante que corre atrás mesmo daquilo que almeja desenvolver.
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voltei no tempo com essas palavras lindas, não pude conter as minhas lágrimas ao me lembrar de alguém tão especial,que hoje também não posso mais abraçar.Essa é uma grande verdade,a vida é feita de tempo, e de momentos vividos ao lado quem tanto amamos . Não deixe o tempo silenciar as suas palavras e depois vc não ter mais tempo… Tempo de dizer um eu te amo.


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